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Ana Vicente, autora de Burnout: A Hipocrisia Corporativa

Por que quem denuncia assédio é chamada de louca?

Por Ana Vicente · · 3 min de leitura

Porque é mais fácil desacreditar a vítima do que tomar providências sobre a liderança.

O caminho mais curto para encerrar a conversa

Quando um superior descobre que o líder abaixo dele cometeu assédio, ele tem uma escolha a fazer. Tomar providências significa mexer na estrutura, rever decisões, assumir novas responsabilidades.

Ou ele pode desacreditar a vítima. Fazê-la parecer o problema. E torná-la descartável.

Esse é o caminho mais curto para encerrar a conversa.

Não é sobre justiça

É sobre o que aquele líder valoriza na sua equipe.

A liderança escolhe quem vai proteger e, assim, revela o lado que escolheu. E muitas dessas lideranças foram escolhidas pela embalagem, e não pela capacidade de liderar gente.

Esse é um dos pilares do que eu chamo de hipocrisia corporativa: o assédio institucional, quando a própria empresa acoberta o problema e quem pediu socorro vira o alvo. Muitas vezes, isso acontece por meio de um padrão com nome e sobrenome, o DARVO.

Não é sobre você

Eu vivi tudo o que eu falo. E, por isso, eu digo: não é sobre você. É sobre um sistema tóxico, que está doente e adoecendo pessoas.

A parte que é sobre você é entender que, se um lugar permite assédio, ele não é um bom lugar para trabalhar. E você pode se tirar desse lugar a qualquer momento, buscando reparação na Justiça, onde quem assedia não tem o poder que tem dentro da empresa.

Assédio adoece e pode matar

Ele faz você duvidar de si até desaparecer.

Não espere por um reconhecimento que não virá. Tenha em mente que você está sendo manipulada para se sentir insuficiente e incapaz.

O que fazer se você denunciou e virou o problema

  1. Documente tudo, inclusive o que aconteceu depois da denúncia: mudanças de função, exclusões, avaliações que pioraram de repente, mensagens e nomes de testemunhas.
  2. Formalize por escrito. Denúncias verbais são mais fáceis de negar. Guarde cópia de tudo o que enviar ao RH, ao compliance ou ao canal de denúncia.
  3. Procure um advogado trabalhista ou o sindicato. Dependendo do caso, o assédio moral pode justificar a rescisão indireta do contrato (quando o empregado encerra o vínculo por falta grave do empregador, mantendo os direitos de uma demissão sem justa causa) e indenização por danos morais.
  4. Conheça outros canais. O Ministério Público do Trabalho recebe denúncias de irregularidades trabalhistas, inclusive assédio.
  5. Cuide da sua saúde. Procure médico e profissional de saúde mental e conte o que está acontecendo no trabalho. Os registros de atendimento também fazem parte da sua história.

Se você estiver em sofrimento intenso ou tiver pensamentos de se machucar, ligue para o CVV no 188 (gratuito, 24 horas) ou acesse cvv.org.br.

Perguntas frequentes

O que acontece quando a empresa não faz nada após uma denúncia de assédio?

A omissão pode ser considerada parte do problema. Quando a empresa sabe do assédio e não age, ou retalia quem denunciou, isso pode reforçar a responsabilidade dela. Um advogado trabalhista pode avaliar as opções no seu caso.

Posso sair da empresa e manter meus direitos se sofri assédio moral?

Em alguns casos, sim, por meio da rescisão indireta, prevista no artigo 483 da CLT. Ela precisa ser reconhecida pela Justiça do Trabalho, por isso é importante ter provas e orientação jurídica antes de tomar a decisão.

Retaliação depois de denunciar assédio é comum?

Infelizmente, sim. Mudança de função, isolamento, avaliações negativas repentinas e questionamentos sobre o equilíbrio emocional de quem denunciou são formas frequentes. Registrar essas mudanças ajuda a mostrar que elas vieram depois da denúncia.

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