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Ana Vicente, autora de Burnout: A Hipocrisia Corporativa

Por que as mulheres mais competentes ficam mais tempo em ambientes tóxicos

Por Ana Vicente · · 4 min de leitura

As mulheres mais competentes costumam permanecer mais tempo em ambientes tóxicos. E existe uma explicação para isso.

A resposta não está na autoestima. Nem na falta de coragem. Está na forma como o seu cérebro foi treinado desde a infância.

É sobre mim. Mas talvez também seja sobre você.

Suportar tudo não é virtude

As mulheres de alta performance quase nunca adoecem porque são fracas. Elas adoecem porque aprenderam que suportar tudo era uma virtude.

Desde pequenas, fomos recompensadas por sermos "a madura":

  • a que tira nota alta;
  • a que resolve os problemas;
  • a que não reclama;
  • a que dá conta.

Então crescemos acreditando que esforço resolve qualquer coisa.

Quando o ambiente fica tóxico, ela trabalha mais

Quando o ambiente fica tóxico, a maioria pensa em sair. A mulher de alta performance faz o contrário.

Ela trabalha mais. Ela tenta entender melhor. Ela melhora a comunicação. Ela assume mais responsabilidades.

Ela acredita que, se fizer tudo certo, uma hora as coisas vão melhorar.

O cérebro aprende por recompensa

Existe um detalhe que quase ninguém conhece: o nosso cérebro aprende por recompensa. Durante anos, o desconforto foi seguido por reconhecimento.

  • Você estudava mais e tirava nota alta.
  • Trabalhava mais e era promovida.
  • Se esforçava mais e recebia elogios.

O cérebro tende a repetir as estratégias que funcionaram no passado. Por isso você continua insistindo. Não porque seja ingênua, mas porque foi condicionada a acreditar que persistir sempre traz recompensa.

O problema é que um ambiente tóxico quebra essa lógica. Ali, quanto mais você entrega, mais o sistema exige. E quanto mais você suporta, mais normal a sua sobrecarga parece. Escrevi sobre esse ciclo em Você pode amar o que faz e ainda adoecer fazendo.

O que a psicologia do trabalho diz

A psicologia organizacional tem um nome para parte desse padrão. No modelo de desequilíbrio entre esforço e recompensa, proposto pelo sociólogo médico Johannes Siegrist, o excesso de comprometimento descreve quem responde ao aumento da pressão com ainda mais dedicação, e não com afastamento. Pesquisas associam esse padrão, sobretudo quando o esforço não é recompensado, a maior risco de exaustão e burnout.

Ou seja: a mesma característica que fez você chegar longe pode ser a que te mantém tempo demais no lugar errado.

Desafio ou ambiente tóxico?

Existe uma diferença enorme entre um desafio e um ambiente que está destruindo você.

Desafios fazem você crescer. Toxicidade faz você desaparecer aos poucos.

Desafio Ambiente tóxico
Exige muito, mas tem começo, meio e fim A exigência só aumenta
O esforço é reconhecido Quanto mais você entrega, mais cobram
Você aprende e se sente mais capaz Você duvida cada vez mais de si
Erros viram aprendizado Erros viram munição
Você pode dizer não Dizer não tem um preço

E o burnout costuma começar exatamente aí: no dia em que a sua maior qualidade passa a ser usada contra você. É uma das engrenagens do que eu chamo de hipocrisia corporativa.

Sobreviver não é o mesmo que viver

Talvez o problema nunca tenha sido a sua capacidade de suportar. Talvez tenha sido acreditar que sobreviver era a mesma coisa que viver.

Porque existe uma hora em que permanecer deixa de ser força. E passa a ser abandono de si mesma.

Se você se reconheceu, veja os 10 sinais de que você está mais perto do burnout do que imagina e faça o Teste Raro de Estresse e Esgotamento. E, se já está nesse lugar, leia Quem é você sem o seu crachá?

Se você estiver em sofrimento intenso ou tiver pensamentos de se machucar, ligue para o CVV no 188 (gratuito, 24 horas) ou acesse cvv.org.br.

Em que momento você percebeu que estava suportando mais do que deveria?

Compartilhe este texto com aquela mulher que vive dizendo: "só mais um pouco, depois melhora".

Perguntas frequentes

Como saber se o ambiente de trabalho é tóxico?

Alguns sinais comuns são cobranças que só aumentam, esforço que nunca é reconhecido, medo de errar ou de discordar, exclusões e ironias frequentes e a sensação de duvidar cada vez mais da própria capacidade. Quando esses sinais se repetem por muito tempo, o ambiente pode estar adoecendo você.

Por que é tão difícil sair de um trabalho tóxico?

Porque quem sempre foi recompensado pelo esforço tende a responder à pressão se esforçando ainda mais, na esperança de que a situação melhore. Somam-se a isso a dependência financeira, o medo de recomeçar e o próprio esgotamento, que tira a energia necessária para tomar a decisão.

Pessoas de alta performance têm mais risco de burnout?

Não necessariamente por serem de alta performance, mas o excesso de comprometimento, quando combinado com pouco reconhecimento, está associado a maior risco de exaustão. Por isso, quem é muito dedicado precisa estar atento aos próprios limites.

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