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Ana Vicente, autora de Burnout: A Hipocrisia Corporativa

A recuperação do burnout não é linear: o que ninguém conta

Por Ana Vicente · · 3 min de leitura

Acho que o mais difícil do processo do burnout é a falta de visibilidade da melhora efetiva.

A recuperação não é linear. É repleta de altos e baixos.

O que eu sinto falta

Enquanto o INSS dá alta e o médico da empresa me considera inapta, eu só queria conseguir assistir a um vídeo de uma hora e assimilar o conteúdo sem esquecer, na metade, do que se trata.

Talvez organizar meu armário sem que isso me custe uma semana de cama.

Eu sinto falta das minhas habilidades cognitivas. De planejar e conseguir cumprir. De não precisar fazer a conta de se tenho energia para viver aquela experiência.

Os sintomas que não aparecem nos exames

O burnout não afeta só o humor e o corpo. Muita gente relata dificuldades cognitivas durante e depois do esgotamento:

  • dificuldade de concentração e de acompanhar conteúdos longos;
  • falhas de memória no dia a dia;
  • dificuldade de planejar e de cumprir o que foi planejado;
  • cansaço desproporcional depois de tarefas simples, que pode levar dias para passar.

Esses sintomas são reais, mesmo quando ninguém de fora consegue vê-los. E costumam ser os mais difíceis de explicar para a família, para a empresa e para a perícia.

O burnout custa caro

Em termos de saúde, o burnout custa caro. Psiquiatra, neurologista, neurocirurgião, médico integrativo, ginecologista, psicólogo, fisioterapeuta e muitos outros.

Hoje, todo o meu tratamento é custeado pela minha reserva financeira, aquela que eu construí para ter uma aposentadoria tranquila. O INSS, embora ajudasse, pagava apenas o condomínio e a escola do meu filho. Agora, no limbo previdenciário, estou consumindo tudo o que construí em nome da alta performance.

O que é o limbo previdenciário

O limbo previdenciário acontece quando o INSS considera a pessoa apta e encerra o benefício, mas o médico da empresa a considera inapta para voltar ao trabalho. Ela fica sem o benefício e sem o salário, no meio de duas avaliações que se contradizem.

Se você está nessa situação:

  1. Procure um advogado trabalhista ou previdenciário. A Justiça do Trabalho tem entendido, em muitos casos, que, a partir da alta do INSS, a empresa deve voltar a pagar os salários ou readaptar o trabalhador em outra função. Cada caso precisa ser avaliado.
  2. Guarde todos os documentos: laudos, atestados, a decisão do INSS e o atestado de saúde ocupacional (ASO) que considera você inapta.
  3. Avalie com o advogado se cabe recurso contra a alta do INSS ou um novo pedido de benefício.
  4. Não peça demissão sem orientação. Isso pode fazer você perder direitos.

E se o seu adoecimento tem relação com o trabalho, como no caso de assédio, isso também deve ser levado ao advogado. Leia por que quem denuncia assédio é chamada de louca.

Não espere chegar onde eu cheguei

Se você sente que está próximo do burnout, não espere chegar onde eu cheguei. A conta é alta.

Veja os 10 sinais de que você está mais perto do burnout do que imagina, faça o Teste Raro de Estresse e Esgotamento e procure ajuda profissional enquanto ainda há energia para isso. Recuperar-se também envolve se reencontrar fora do trabalho, como escrevi em Quem é você sem o seu crachá?

Se você estiver em sofrimento intenso ou tiver pensamentos de se machucar, ligue para o CVV no 188 (gratuito, 24 horas) ou acesse cvv.org.br.

Perguntas frequentes

A recuperação do burnout é rápida?

Normalmente não. A recuperação costuma levar meses e não é linear: períodos de melhora podem ser seguidos de recaídas. O tempo varia de acordo com a gravidade do quadro, o tratamento e as condições de vida e de trabalho.

Burnout afeta a memória e a concentração?

Muitas pessoas com burnout relatam dificuldade de concentração, falhas de memória e dificuldade de planejar. Esses sintomas devem ser relatados ao médico, que pode investigar e acompanhar o quadro.

O que fazer se o INSS deu alta mas a empresa diz que não posso trabalhar?

Essa situação é chamada de limbo previdenciário. O ideal é procurar um advogado trabalhista ou previdenciário, guardar todos os laudos e documentos e não pedir demissão sem orientação.

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Como está o seu nível de esgotamento?

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